Características de Chantal Akerman: paralelos de semelhança entre suas obras.

Chantal Akerman cineasta Belga nasceu em 1950, desde a adolescência se interessou pelo cinema de autor no qual mais tarde trabalharia, e se tornaria um dos principais nomes europeus deste cinema de sua geração. Frequentemente comparada a Jean-luc Godard(uma de suas principais referências) e Rainer Werner Fassbinder. Em suas obras Akerman trouxe um novo significado ao cinema independente, marcou com sua forma singular de narrativa e ritmo suas obras e claramente pela criatividade embutida, cada frame dentro da composição da obra tem um significado, assim como cada gesto da personagem que por sua vez tem o seu tempo para executar as tarefas. Apesar de seus filmes terem como personagens principais mulheres e seus ambientes e/ou situações, Akerman tenta fugir do rótulo de “cineasta feminista”.

Chantal Arkeman começou jovem, com apenas 18 anos, com o curta-metragem Saute ma Ville (1968), desde esta primeira obra ela mostra saber fazer cinema. Depois dessa iniciação, Akerman cria sua forma autoral de dirigir um filme a partir de coerções formais. Ela não se limita ao formato formal de criar nem ao formato experimental, Arkeman equilibra ambos os lados nas suas obras. E é com este senso de harmonia entre diferentes formas de narrativa que Arkeman constrói seu cinema autoral.

Akerman fez obras desde documentários experimentais no início da carreira até instalações de vídeo, mais recente, próximo a virada do século. Sua obra de maior repercusão foi Jeanne Dielman, 23 Quai de Commerce, 1080 Bruxelles (1975), pouco divulgado nos Estados Unidos porém teve uma ótima resposta na Europa. Este longa-metragem é o exemplo de filme de Akerman, os posicionamentos de câmera parados e em ângulos fixos com pouca movimentação em que o enquadramento dá espaço para a personagem andar pelo ambiente sem precisar de movimentos de câmera, “numa espécie de jogo regulado com os quadros impostos na banalidade do cotidiano” (ISHAGHPOUR, Youssef, p.30). O tempo de filme que permite a construção da trama pelo seu tempo de acontecimento e leva o espectador a entrar na história. E claramente o drama da mulher, neste caso contando 3 dias de Jeanne Dielman, uma mulher sistemática, mãe e dona de casa que sem a figura do homem (falecido marido) se vê na posição de precisar se prostituir para sustentar seu lar. A forma como a narrativa se desenrola é essencial para o entendimento da história e Akerman cria a atmosfera conseguindo guiar o público a sentir o que ela deseja passar, orquestrando os elementos cinematográficos belamente. Como principal caracteristica a sistematicidade e as escolhas de tempo de duração das ações que igualam a importância do cortar de um legume ao assassinato cometido pela personagem no final do filme a um de seus clientes. Todo o tempo fílmico de 3 dias são necessários para mostrar a rotina dessa mulher dentro da casa, a ambientação do espectador para o desfecho em que a ordem dos fatos é alterada.

Diferente de Jeanne Dielman que se passa em ambientes internos (repressores), Toute une nuit é um filme externo. Em Toute une nuit (1982) se trata da ideia de lugares, não de lugares em si, assim como a história não é uma história de amor, e sim do tema e os locais são apenas os locais (neutros) dos encontros. E apesar da continuidade espacial e temporal impressa nada garante que seja uma continuidade narrativa. A relação entre os planos é a completa falta de relação entre eles, neste momento entra a importância e beleza da montagem e do fluxo que o filme tem. Chantal Arkeman consegue com sutileza criar um ritmo entre fluxo e quadro essenciais para a interpretação do filme como momentos e lugares distintos de encontros.

O filme anterior a Toute une nuit foi Les rendez-vous d'Anna, onde a personagem princial, Anna, tem semelhanças com Jeanne Dielman, porém de uma maturidade diferente. Este filme serve como marco na forma de narrativa de Arkeman pois a partir dele ela começa a usar locações externas em suas obras. Em Les rendez-vous d'Anna a personagem é uma judia exilada que não pertence a lugar algum. O filme mostra a Arkeman o seu aprisionamento, e conhecendo ele ela pode libertar-se. “E não é a viagem ou a voz registrada na secretaria eletronica que a libertarão.”

“Talvez tenha sido o proprio filme que cumpriu essa tarefa; uma libertação pelo exterior dos limites, uma sintese, e por isto mesmo uma realização, decepcionante como esta, às vezes, pode ser. Em todo caso, o trabalho posterior de Arkeman é cheio de uma grande leveza.” (ISHAGHPOUR, Youssef, p.34)

Chantal Arkeman tem uma de suas características sua radicalidade dentro do cinema, ela não traz consigo ressentimento para com o cinema anterior, não o recusa nem o quer destruir, dessa forma ela é livre para criar sem entrar em méritos de fazer um contra cinema apenas para ser um contra, isso acontece naturalmente em suas obras.. Arkeman se faz experimental por não ter compromisso com nada e poder criar livremente e “ela está em pleno acordo com a reprodução técnica" (ISHAGHPOUR, Youssef, p. 27).

Em Là-Bas (2006) Arkeman constrói uma moldura aos enquadramentos em formato de uma janela, delimitando rigidamente assim o espaço, delimitação essa que deseja ser quebrada. Arkeman é a atriz que interpreta a personagem, assim como em algumas outras obras autorais anteriores como: Je tu il elle (1976); Saute ma ville (1968); La Chambre (1972); News from home(1977). Como uma das características de Arkeman é saber criar tecnicamente para levar o espectador a ver e até mesmo interpretar o filme como ela deseja passar, a moldura é essencial assim como toda a obra, desde os enquadramentos e a posição dos objetos. A história é um ensaio de acontecimentos da vida da personagem contados em off (recurso narrativo usado em outras obras pela diretora) pela mesma. Este não se define como documentário, porém carrega a herança de seus três documentários anteriores D'est, Sud e De l'autre Côté. Se passa em Israel, lugar onde esperava-se que algum dia Arkeman faria alguma obra por sua descendência judaica.

Là-Bas serve de exemplo de como Chantal Arkeman tem o seu cinema autoral bem definido, e que em muitos de seus filmes possuem características em comum como o espaço claustrofóbico, no caso de Là-Bas ainda mais isolado e delimitado pela estética com a moldura de janela nos enquadramentos. Um filme de difícil imersão do espectador especialmente pelo ritmo lento e a fixidez da câmera que quase todo o tempo se mantém parada valorizando um enquadramento, e por não ter uma linearidade de ações, é apenas a personagem narrando suas memórias sem a necessidade de linearidade.

Uma outra característica que a acompanha desde o inicio da carreira presente neste filme é o minimalismo na composição dos enquadramentos, e dar o tempo das ações acontecerem em seu início, meio e fim, ao ponto de tornar uma simples tarefa algo de grande importância. Arkeman exige muita rigidez de execução dos atores, e essa rigidez faz com que a mudança da rotina, no caso de Jeanne Dielman, signifique uma forma de libertação, e também de clímax. A rigidez se estende há composição do cenario que deve estar de acordo com o enquadramento e possibilita que a personagem faça seus movimentos.

Arkeman além de ficção produziu documentários, e nestes mais que em qualquer filme apesar de também ter influência de sua vida, ela deixa sua história entrar. Filha de judeus poloneses, Chantal Arkeman retrata muitas vezes grupos de pessoas desaparecidas, vítimas de preconceito e fadadas ao êxodo de sua região, não diferente da história de seus pais ou de seus avós. Porém ela aborda de formas diferentes da religião, seja um documentário sobre mexicanos buscando passar a fronteira para os Estados Unidos da América, seja retratar o leste pobre Europeu marcado pelo nacionalismo e racismo em D'Est (1993).

D'Est (1993) provavelmente o documentário de maior repercussão de Arkeman teve como início o convite para que ela fizesse uma instalação, a qual ela fez. Diferentemente da sua marca autoral, o filme não possui qualquer narração, o que se ouve são os idiomas entre as pessoas da região em que ela filmou. Sem a pretensão de fazer um documentário de cunho político ela conseguiu trazer pelas faces as inseguranças daquelas pessoas da Europa Ocidental, marcadas pelo passado sem saber qual o futuro que os aguarda. Na instalação multimídia para onde foi criado, por ser um espaço de amostragem diferente, Arkeman utilizou 25 monitores onde trechos eram rodados, 23 deles com o murmúrio dos idiomas europeus, os outros dois restantes narrados por ela. Interessante perceber que dentro deste documentário onde os planos longos podem parecer não ter sentido como demorar-se a filmar mulheres desconhecidas em atividades domésticas, mas que com um pouco de atenção e conhecimento da filmografia de Arkeman é possível ligar essas imagens corriqueiras ao filme Jeanne Dielman.

Em Sud (1999) o tema é novamente o racismo, porém desta vez nos Estados Unidos. Especificamente sobre um acontecido no Texas sobre o assassinato de um musico negro por tres homens brancos que se achando no direito para mostrar a superioridade de sua "raça". Neste documentário acontecem oito entrevistas que são intercaladas por longas cenas silenciosas de paisagens. A paisagem final mostra onde o crime foi cometido, um longo travelling da estrada onde James Byrd Junior foi arrastado por um caminhão e acabou falecendo. A sensação passada por esse longo plano é bem descrita por Anita Leandro "um longo travelling faz um escalpo do presente que mostra um passado de sangue entranhado no asfalto e no silêncio da floresta escura" (LEANDRO, Anita, p.104). Nos depoimentos dados as pessoas entrevistadas lembram de como era esse rascismo e de coisas terriveis que aconteceram, inclusive uma delas lembra do trabalho escravo que prestava, outra mulher dos linchamentos e assassinatos de negros. Akerman dá voz a essas pessoas, há suas tristes lembranças que merecem ser ouvidas, e as eterniza. Em um plano longo ela da espaço para um guitarrista tocar blues em homenagem aos negros assassinados naquela cidade, e em outro plano tão longo quanto Arkeman da tempo a um culto religioso em memória a James Byrd Junior onde membros de sua familia estão presentes.

Também no território estadunidense se passa o documentário De l'autre côté (2002), que de certa forma retoma tanto D'Est por retratar uma população carente e Sud em relação à xenofobia de um povo diferente do "dominante". De l'autre côté é um filme sobre a fronteira entre os Estados Unidos e México, o muro bem iluminado e vigiado onde do outro lado encontra-se a promessa de uma vida melhor, porém a travessia se mostra um caminho perigoso. A estrutura narrativa se dá assim como Sud por entrevistas de parentes de pessoas que tentaram e em grande maioria fracassaram, ou de estadunidenses que viam prisões de imigrantes clandestinos, ou ainda mais chocante que esses depoimentos o de um casal dos Estados Unidos que temia a chegada de mexicanos as suas terras e que trouxessem doenças com eles e se preparava com armas de fogo para caso houvesse tal aproximação.

Ainda em semelhança entre De l'autre côté e Sud se encontram os longos planos fixos, especialmente nos planos do muro que se demoram e em travelling e se mostram o lugar decisivo, assim como a estrada em Sud, o local da morte dos "protagonistas". Por último, assim como Akerman dá voz ao sofrimento dos parentes de James no final de Sud ela abre espaço para um grupo de clandestinos que estavam perdidos e foram resgatados pela produção a falar sobre essa jornada. Sem qualquer pergunta ela apenas registra e da liberdade do grupo compartilhar sua experiência.


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